terça-feira, 4 de abril de 2017

LITUANO - Uma Epopeia através de um Idioma Misterioso

Hoje eu completo exatos 1 ano e 6 meses como aprendiz de lituano. Ao mesmo tempo que é pouco tempo para aprender uma língua estrangeira, parece que eu tenho feito isso a minha vida toda ou parte dela. A sensação que eu tenho é como se eu fosse Ulisses tentando voltar para casa, em Ítaca, depois de lutar na Guerra de Troia, como relatado poeticamente na Odisseia de Homero. A minha epopeia se iniciou no dia 5 de outubro de 2015. Isso tudo começou porque eu fazia aulas de conversação de russo com minha professora, que na verdade é nascida em Vilnius, capital da Lituânia. Após ter feito 36 aulas de conversação de russo com ela, percebi que estava diante de uma oportunidade sem igual, que seria, poder aprender lituano com uma nativa.

Muita gente me pergunta ou poderia me perguntar, mas por que lituano? Eu venho estudando línguas estrangeiras há alguns anos e decidi me focar no aprendizado de línguas indo-europeias. Já estudei e tive contato com idiomas de outras famílias, tais como mandarim, da família sino-tibetana, indonésio, da família australásica, maia yucateco, da família maia e hebraico, da família semítica. Mas após uma escolha pessoal, decidi me focar integralmente em línguas indo-europeias, para que eu venha a aprender pelo menos 10 idiomas dessa família. Já sabia que o lituano era uma língua citada por vários autores como sendo a mais antiga língua moderna dessa família, podendo ser comparada ao grego, latim, sânscrito e hitita. Com isso, a minha curiosidade aumentava ainda mais e pensava que um dia, pelo menos daqui uns 10 anos eu pudesse vir a aprendê-la. No momento em que comecei a aprender lituano, eu estava na verdade pensando em voltar a estudar alemão, mas como eu tinha uma professora na minha frente e não sabia se teria uma oportunidade como essa outra vez, decidi trilhar por esse caminho e deixar o alemão de lado, pelo menos naquele momento, pois agora, retornei com os meus estudos de alemão em uma escola.

Como um marinheiro, em meio a águas desconhecidas, comecei a minha tentativa de poder entender algo tão diferente de tudo que havia aprendido até então, na verdade, alguns elementos desse idioma se assemelham ao russo, mas mesmo assim, eu me encontrava em um território totalmente estranho. 

Eu me sentia só em uma jangada, me movendo por águas calmas e enfrentando tempestades marinhas que quase me venceram. Em alguns momentos, eu podia avistar terra e pensar que estava perto de casa, mas não passava de alucinações causadas por falta de água doce ou por estar exposto por dias e mais dias ao calor intenso do sol. Dias se passaram e eu cheguei em terra firme, mas assim como Ulisses, enfrentei gigantes e monstros assustadores. O único jeito era retornar ao mar e tentar seguir viagem.

Meses e mais meses foram passando e conheci muitas ilhas e seres fabulosos. Passei a entender coisas que nunca tinha visto e a saborear o gosto de alimentos exóticos. Os perfumes que respirei, possuíam aromas que iam do ocidente, passando pela Pérsia e chegando até a Índia. Repetidas vezes eu fiquei inebriado por ingerir uma bebida forte e inigualável. Senti frio, calor, fome, sede, e fui atacado por monstros marinhos e atingido por chuva forte. Em alguns momentos, não sentia os meus braços ou pernas. Minhas forças quase me abandonaram, mas eu sempre pensava na amada Ítaca. Ficar tanto tempo fora de casa era para mim um infortúnio incomparável.

Ondas gigantes me arrastaram de um lado para o outro e parecia que eu havia provocado o rei dos mares em pessoa. Com o tempo, me acostumei à vida no mar e aprendi a pescar e a guardar água da chuva. Quando chegava em uma nova ilha, eu caçava e colhia frutos. Hoje eu sinto que a cada dia que passa, que eu estou mais perto de casa e que o mar não mais me assusta. Eu sonho com o lar e sonho que o mar também se tornou meu. O meu retorno a amada Ítaca ainda não foi possível, mas poder conhecer e mapear esse mar de informações e sentimentos que é a língua lituana, cheia de mistérios e nuances, me deram a prova que o fato de eu querer retornar para casa e ver que na minha frente eu teria que atravessar um mar inteiro, já valeu a pena.

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